quarta-feira, 2 de setembro de 2020

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM - MÊS DA BÍBLIA - PADRE GILBERTO KASPER

 

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS

VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM                MÊS DA BÍBLIA


 

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

“Vós sois justo, Senhor, e justa é a vossa sentença;

tratai o vosso servo segundo a vossa misericórdia” (Sl 118,137.124).

 

            O Mês de Setembro, especialmente, dedicado à Bíblia, incentiva-nos À Prioridade do Anúncio da Palavra de Deus. E o Vigésimo Terceiro Domingo do Tempo Comum nos apresenta o Evangelho, em que Jesus nos convida ao diálogo para superar os conflitos e garante sua presença na comunidade reunida. Além disso, mostra que a correção fraterna, apesar de difícil, é belo gesto de ajuda entre irmãos que se amam e se respeitam.

            A Palavra de Deus nos diz que todos somos responsáveis uns pelos outros. O amor faz que nos preocupemos com as pessoas e nos impulsiona a dialogar com quem se desviou do caminho do bem.

            Somos responsáveis pela violência que faz tantas vítimas na sociedade. A correção fraterna deve ser realizada em clima de amor e de oração. O amor pelo próximo é a plenitude da lei.

            A Eucaristia é o sinal da comunhão fraterna. Participando do Corpo e Sangue do Senhor, tornamo-nos solidários no bem e afastamos de nós o egoísmo.

            Estamos no mês dedicado à Bíblia. No Evangelho encontramos Jesus, o mestre da justiça, oferecendo ensinamentos e práticas geradores de novas relações e inspiradores de novas posturas na construção da sociedade justa e fraterna. A sua Palavra nos educa para o diálogo e a correção fraterna: única dívida que devemos ter uns com os outros.

            Que fatos e acontecimentos precisam ser lembrados na celebração deste final de semana e que nos ajudem a perceber e celebrar os sinais do Reino de Deus entre nós?

            Pelo profeta Ezequiel somos convidados a sermos sentinelas do bem e da justiça na noite das injustiças que existem e que ceifam a vida de milhões. Garantir e cultivar a justiça é um compromisso inerente que temos com o Deus da vida e da liberdade. Até que ponto a profecia de Ezequiel não deveria ser acordada hoje na missão da Igreja, promotora da vida e solidária com os excluídos?

O salmista nos pergunta se não abandonamos a aliança, não esquecemos o nosso Deus e nos instalamos numa religião fácil, sem compromissos com a criação e os mandamentos de Deus?

            Na Carta aos Romanos, Paulo nos dá a entender que há uma só maneira de amarmos a Deus que é amando o próximo, a cada pessoa, do jeito que ela é, e ninguém escolhe o próximo para amá-lo. Ele simplesmente se apresenta como dom de Deus e também como desafio à nossa capacidade de amar. Temos muita consciência que somos devedores diante de Deus de uma dívida impagável, a não ser que sejamos capazes de gestos gratuitos como os de Jesus, que se entregou radicalmente por amor.

            Quem ofendeu um membro da Comunidade rompeu com a Comunidade toda. O Evangelho nos convida a fazer de tudo, apelar a toda a criatividade para que reine entre nós o jeito de ser de Jesus. Mas, se não lhe der ouvidos, convide uma ou duas pessoas para ajudar no diálogo. Se mesmo assim não houver reconciliação, só depois de muitas tentativas é que se recorre à Comunidade, que age em nome de Jesus, ajudando nos conflitos e nas necessidades dos irmãos. Parece até que estamos pressionando o irmão, mas como se trata da justiça do Reino, precisamos fazer de tudo para que o irmão não se perca, não saia da caminhada da Comunidade, do seguimento fiel a Jesus e volte-se para as exigências evangélicas. E se nada der resultado satisfatório? Só aí a Comunidade tomará conhecimento do erro e será chamada a tomar uma decisão: Caso não der ouvidos, comunique à Igreja.

            Antes de denunciar, denegrir ou excluir é necessário acolher, perdoar, aconselhar e colocar em contato com o bem, inserir na Comunidade fraterna e fazer de tudo para que as pessoas não se afastem do bem e da prática da justiça. O Papa Francisco insiste tanto nisso em suas alocuções, sobretudo em seu primeiro livro: A Igreja da Misericórdia! Mas em nossas Comunidades acontece, frequentemente, o contrário: quantos líderes conhecemos que simplesmente se sentem no direito de excluir e mandar embora os filhos que ajudaram a escrever a história de suas Paróquias. Em minha opinião isso é diabólico e precisa urgentemente mudar! Nenhum Padre tem o direito de exigir que sua comunidade se adapte aos seus caprichos e não poucas vezes aos seus desequilíbrios afetivos e emocionais. Tais pastores não são configurados a Jesus, mas fazem da Igreja um trampolim para a própria sobrevivência. Não faltam casos concretos entre nós, que me parece gritar por uma séria conversão pastoral da Paróquia!

            Do começo ao fim dos Evangelhos, Jesus prega ser o Reino de Deus um Reino de Justiça. Logo onde não há Justiça, também não se sentirá o sabor do Reino de Deus! Ao lado da Justiça soma-se a Misericórdia, cujo resultado é o verdadeiro Amor com sabor divino!

            Tive, na Alemanha, um Reitor no Seminário, que detestava Dedo-Duro. Costumava dizer que, geralmente atrás de alguém que denuncia o erro do outro, gratuitamente, esconde o próprio erro atrás do erro desse outro. É o contrário da mensagem da Palavra deste domingo, que sugere a correção fraterna. Em nossas Comunidades, mas principalmente entre os próprios Ministros Ordenados, é muito frequente o caminho inverso do sugerido pelo Evangelho. Primeiro espalha-se o erro do irmão na Comunidade, difamando-o o quanto possível, para abastecer-se de argumentos a serem levados à autoridade eclesial: no caso da Comunidade, o Padre; no caso do Clero, o Bispo, e geralmente o último, a saber, que errou, é o irmão já totalmente difamado, triturado, esmagado pelos demais. Como isso é feio. Quem não tem a capacidade de corrigir fraternalmente o irmão, é também incapaz de perdoar e amar. Muitos se sentem tão “perfeitos e corretos” que não aceitam correção. A prepotência e a arrogância não permitem e não dão espaço nem mesmo a um exame da própria consciência. Esses geralmente se alegram em “pisar naqueles que erram” e na maioria das vezes os excluem de suas Comunidades que não têm espaço para pessoas que não agradam, não pensam como nós, ou questionam determinadas hipocrisias nossas. É mais fácil mandar embora do que dialogar com o “diferente” ou o “difícil”. Existe algo mais anti- evangélico do que dizer: “Em minha Paróquia eu fiz uma limpeza de pessoas insuportáveis... Quem não aceita dançar a música que eu tocar, sinta-se desconvidado...” Pior do que isso é aquele Sacerdote ou Agente de Pastoral, que além de não ter a capacidade de perdoar, talvez porque nunca tenha feito a experiência do verdadeiro amor de Cristo Misericordioso, sentir-se vitorioso por ter esvaziado sua Comunidade, desrespeitando a história da mesma, que certamente não começou com a chegada dele; ter o apoio de seus Superiores para surrar e machucar suas ovelhas, como se fossem inúteis. Este tipo de endeusamento clerical seguramente lhe garantirá aquele estado de vida descrito pelo próprio Cristo, como “Lugar do fogo do inferno, onde haverá choro e ranger de dentes...”.

            Rezemos pela conversão de nossa Igreja, a começar de nós Presbíteros, a fim de que prevaleça o Amor! Quem realmente se sente configurado com Cristo, o Bom Pastor, ama e acolhe quem lhe é confiado para tornar-se a verdadeira Igreja de Jesus Cristo e não desse ou daquele ministro, seja ele ordenado ou não.

                        Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, meu abraço amigo,

Pe. Gilberto Kasper

(Ler Ez 33,7-9; Sl 94(95); Rm 13,8-10 e Mt 18,15-20).

Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Setembro de 2020, pp. 28-36 e Roteiros Homiléticos da CNBB do Tempo Comum II (Setembro/2020) pp. 12-16.

 

 

 

 

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