quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM - PADRE GILBERTO KASPER

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS
SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Os olhos do Senhor estão voltados para os que o temem.
Ele conhece todas as obras do homem” (Eclo 15,20).

            No Sexto Domingo do Tempo Comum a Palavra de Deus nos ilumina sobre a relação de Jesus e a lei. Sua missão não é abolir nem facilitar, mas libertar do formalismo e do fundamentalismo. Para Jesus, não basta a observância externa apenas para “ir para o céu” após a morte. Jesus exige radicalidade. A Palavra de Deus deve atingir até o mais profundo do ser humano. É uma procura amorosa da vontade original de Deus que ultrapassa a simples letra da lei. É necessário ver e ouvir por “trás das palavras”, encontrando-se pessoalmente com o Espírito da Lei.
            Para o cristão ser justo, conforme a exigência de Jesus, não basta observar preceitos, cumprir mandamentos, é necessário viver e realizar o bem proposto por Deus em sua Palavra. A letra da lei mata, mas o Espírito vivifica. Conforme o Salmo 119 (118), a lei é uma luz, um caminho, razão de viver e se sentir interiormente como povo escolhido de Deus. A lei foi dada para podermos viver e testemunhar o bem que Deus propõe.
            Jesus nos alerta que podemos observar a lei em outro espírito, que não seja o Espírito de Deus. O espírito que motivava os fariseus da época se afastava do projeto do Pai, porque não beneficiava os pobres e pequeninos. Não era espírito de Deus, mas um negócio com Deus, troca, barganha. Os fariseus tornaram-se donos da lei e ela passou a ser instrumento de dominação econômica, política e religiosa sobre os demais: “Amarram pesados fardos e impõem-nos aos ombros dos irmãos, ao passo que eles mesmos se negam a movê-los com o dedo” (cf. Mt 23,4) Jesus, então, deseja tirar a lei das mãos de quem oprime em nome de sua observância e devolvê-la a Deus. O que Deus deseja é a justiça, seu plano amoroso. Procurar a justiça verdadeira é olhar a vida com amor radical. Então os mandamentos de Deus significarão muito mais do que a letra diz, e nos levarão à perfeição de filhas e filhos de Deus.
            Cumprir toda justiça é a justiça que inclui lei e profetas. O essencial da lei é a prática da justiça e da misericórdia que ultrapassam a observância legalista. Jesus toma alguns exemplos para deixar claro até onde devem ir a justiça e a misericórdia. Vai até a raiz e mostra que o objetivo da lei é a defesa da vida. Não basta “não matar”, é necessário construir uma sociedade humana, fraterna e solidária, na qual a vida plena seja para todos. A lei é “não cometer adultério”, mas não; é preciso eliminar o desejo de posse sobre a mulher, extinguir todo machismo e todos os privilégios do homem, raiz de toda opressão presente nas relações humanas. O bem-querer é a proposta de Deus. Nossa resposta é um amor verdadeiro, com raiz na totalidade da pessoa, o qual se insere na fonte do amor que é o próprio Deus. Não basta “não jurar em falso”; temos que promover a convivência fundamental na verdade, na integridade, na honestidade, na ética.
            O que a Palavra de Deus exige hoje de nós é cortar o mal pela raiz. Jesus não nos prescreve apenas normas, mas uma proposta evangélica nova que batize, lave até nosso inconsciente, nossa consciência profunda, e faça da vida um contínuo ato de discernimento, de busca de sentido de nosso ser, de nosso viver, do nosso agir. A primeira leitura nos convida, a cada momento, a tomar uma posição diante da LEI, o projeto de Deus.
            Somos convidados a uma profunda conversão em todas as dimensões de nossas relações humanas. Na dimensão familiar, evitando acepções e discriminações. Na dimensão política não poucas vezes a lei é aplicada com maior rigor aos adversários políticos e relaxada aos correligionários, o que é profundamente injusto. A lei deveria ser aplicada de igual modo a todos, já que todos deveriam ser tratados com igual cidadania. Na dimensão social o jogo de interesses determina a lei, quando não a “Cultura do Descartável”. Quantas pessoas conhecemos, que só sobrevivem à custa do dinheiro, do prestígio, do poder, da ganância e da avareza? Na dimensão religiosa também carecemos de séria conversão pastoral. Nossas normas pastorais nem sempre são acolhedoras; mais espantam do que acolhem os filhos da Igreja. Não se trata de “banalizar” a pastoral, mas também não dificultar a vida dos que nos buscam sendo-lhes um peso sobre os ombros. As secretarias paroquiais geralmente só dão expediente em horário comercial, quando as pessoas trabalham. Se a Igreja é Mãe, seus filhos deveriam encontrá-la sem que isso prejudique sua sobrevivência. Gosto de pensar, que a Igreja deve sempre edificar e nunca dificultar a vida de seus filhos nas dimensões: pessoal, familiar, profissional e social. Muitas vezes somos mais exigentes com nossos Agentes de Pastoral, do que foram os fariseus do tempo de Jesus. Fazê-los nossos “funcionários” e exigir que deixem o convívio da família não me parece o projeto de quem diz amar seu rebanho. Como seria bom, se todos nos  propuséssemos a uma verdadeira e profunda conversão, deixando a última palavra para o amor totalmente gratuito. Se nem Deus impõe nada, apenas propõe, quem somos nós para exigências tantas vezes absurdas, que demonstram nossa incapacidade de conduzir as pessoas a Jesus Cristo livremente? Sejamos humildes e nos esforcemos por maior criatividade e, sobretudo coerência entre o que pregamos e vivemos!
            Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço amigo,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Eclo 15,16-21; Sl 118(119); 1 Cor 2,6-10 e Mt 5,17-37).
Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Fevereiro de 2020, pp. 64-67 e Roteiros Homiléticos da CNBB do Tempo Comum (Fevereiro de 2020), pp. 70-7

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